Eixo intestino-cérebro e seu impacto no humor

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Flávia Libonati

O que é o eixo intestino-cérebro?

O eixo intestino-cérebro é a comunicação constante entre o intestino, o cérebro e as bactérias que vivem no intestino, chamadas microbiota.

Essa conversa acontece em duas direções:

  • O cérebro influencia o intestino
  • O intestino influencia o cérebro

Por isso, situações emocionais podem provocar sintomas digestivos, e problemas intestinais também podem afetar o humor, o sono, a memória e a disposição.

Um exemplo clássico é perceber dor abdominal, náusea, diarreia ou constipação em fases de estresse intenso.

Por que o intestino é chamado de “segundo cérebro”?

O intestino possui milhões de neurônios e um sistema nervoso próprio, chamado sistema nervoso entérico. Ele consegue funcionar de forma parcialmente independente e envia informações ao cérebro o tempo inteiro.

Além disso, cerca de 90% da serotonina do corpo é produzida no intestino. A serotonina participa do humor, do sono, da saciedade e da sensação de bem-estar.

O intestino também participa da produção e regulação de substâncias ligadas ao cérebro, como:

  • Serotonina
  • Dopamina
  • GABA
  • Melatonina

Essas substâncias ajudam a regular ansiedade, concentração, motivação, sono e estabilidade emocional.

Como o intestino conversa com o cérebro?

Existem 4 principais caminhos dessa comunicação:

1. Nervo vago

O nervo vago funciona como uma “rodovia” entre intestino e cérebro. Ele leva informações sobre inflamação, digestão, saciedade e estado emocional.

Quando o intestino está inflamado ou desequilibrado, o cérebro também pode receber sinais de alerta.

2. Microbiota intestinal

Trilhões de bactérias vivem no intestino. Quando elas estão equilibradas, ajudam a produzir substâncias anti-inflamatórias e neurotransmissores.

Quando ocorre desequilíbrio, chamado disbiose, podem surgir sintomas como:

  • Ansiedade
  • Irritabilidade
  • Cansaço
  • Compulsão alimentar
  • Distensão abdominal
  • Intestino preso ou solto

3. Inflamação

Uma alimentação rica em ultraprocessados, açúcar, álcool, excesso de antibióticos e estresse crônico pode aumentar a inflamação intestinal.

Essa inflamação pode alterar a permeabilidade do intestino, permitindo a passagem de substâncias inflamatórias para a circulação. Isso pode impactar o cérebro e aumentar sintomas emocionais.

4. Hormônios do estresse

O estresse aumenta a liberação de cortisol. Em excesso, ele pode:

  • Alterar a microbiota
  • Aumentar inflamação
  • Piorar a digestão
  • Reduzir a absorção de nutrientes
  • Intensificar ansiedade e alterações de humor

Ou seja: quanto maior o estresse, maior a chance de o intestino sofrer. E quanto pior o intestino, mais o cérebro pode sofrer também.

Quais sintomas podem indicar desequilíbrio no eixo intestino-cérebro?

Nem sempre os sintomas aparecem apenas no intestino. Muitas vezes o corpo dá sinais mais sutis.

Alguns dos sintomas mais comuns são:

  • Ansiedade frequente
  • Alterações de humor
  • Irritabilidade
  • Sensação de mente “confusa”
  • Falta de concentração
  • Insônia
  • Compulsão por doces
  • Cansaço persistente
  • Estufamento abdominal
  • Gases
  • Prisão de ventre ou diarreia

Quando sintomas digestivos e emocionais aparecem juntos, vale investigar a saúde intestinal.

O que pode prejudicar o eixo intestino-cérebro?

Alguns hábitos do dia a dia podem desequilibrar essa conexão:

  • Dormir mal
  • Estresse constante
  • Alimentação rica em açúcar e ultraprocessados
  • Consumo frequente de álcool
  • Uso repetido de antibióticos
  • Sedentarismo
  • Dietas muito restritivas
  • Comer rápido e sem mastigar

Muitas pessoas tentam tratar apenas a ansiedade, o intestino ou a compulsão separadamente, mas sem olhar a causa de forma integrada.

Como melhorar o eixo intestino-cérebro?

Pequenas mudanças podem fazer grande diferença:

Priorize fibras

As fibras alimentam as bactérias boas do intestino.

Inclua:

  • Frutas
  • Verduras
  • Legumes
  • Aveia
  • Chia
  • Linhaça
  • Feijão

Consuma alimentos fermentados

Eles ajudam a enriquecer a microbiota.

Exemplos:

  • Iogurte natural
  • Kefir
  • Kombucha
  • Chucrute

Reduza ultraprocessados

Excesso de açúcar, corantes, conservantes e alimentos industrializados pode favorecer inflamação e disbiose.

Cuide do sono

Dormir bem ajuda a equilibrar cortisol, microbiota e produção de neurotransmissores.

Controle o estresse

Atividade física, meditação, respiração, psicoterapia e momentos de lazer ajudam a proteger tanto o cérebro quanto o intestino.

Probióticos ajudam?

Em alguns casos, sim. Existem bactérias específicas, chamadas psicobióticos, que vêm sendo estudadas por sua possível ação sobre ansiedade, estresse e humor.

Mas nem todo probiótico serve para todo mundo. O ideal é avaliar sintomas, alimentação, exames e histórico antes de escolher um tratamento.

Automedicação ou uso indiscriminado de suplementos pode não trazer resultado.