Probióticos e transtornos de humor: quais cepas são estudadas?

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Flávia Libonati

Probióticos podem influenciar o humor?

O intestino e o cérebro estão em constante comunicação por meio do chamado eixo intestino-cérebro. Essa comunicação envolve vias nervosas, imunológicas, metabólicas e hormonais e tem despertado interesse da ciência na investigação de possíveis relações entre a microbiota intestinal e sintomas de ansiedade, estresse e depressão.

Nesse contexto, surgiu o termo psicobióticos, utilizado para descrever microrganismos ou outras intervenções relacionadas à microbiota que podem produzir efeitos benéficos sobre aspectos da saúde mental.

Mas existe um detalhe importante: não é correto considerar que todo probiótico tenha o mesmo efeito sobre o humor.

As evidências são, em grande parte, específicas para determinadas cepas.

O que significa “cepa” de um probiótico?

Um probiótico é identificado pelo gênero, espécie e, quando disponível, por uma identificação específica da cepa.

Por exemplo:

Bifidobacterium longum 1714

Nesse nome, Bifidobacterium corresponde ao gênero, longum à espécie e 1714 identifica a cepa.

Essa identificação é importante porque duas cepas da mesma espécie podem apresentar características biológicas diferentes.

Por isso, quando um estudo demonstra algum benefício com uma determinada cepa, não podemos simplesmente concluir que qualquer produto contendo a mesma espécie terá o mesmo efeito.

A Organização Mundial de Gastroenterologia destaca justamente que os benefícios dos probióticos devem ser relacionados às cepas específicas e às doses estudadas em seres humanos.

Quais cepas estão sendo estudadas para humor, ansiedade e estresse?

A pesquisa sobre psicobióticos ainda está em desenvolvimento, mas algumas cepas já foram investigadas em estudos clínicos.

Lactobacillus helveticus R0052 + Bifidobacterium longum R0175

Essa combinação está entre as mais estudadas quando o assunto é estresse, ansiedade e sintomas relacionados ao humor.

Estudos em humanos avaliaram seus possíveis efeitos sobre sintomas psicológicos, embora os resultados não sejam suficientes para considerar essa combinação um tratamento estabelecido para transtornos de humor.

O ponto importante é que o possível efeito está relacionado à combinação e às cepas estudadas, e não simplesmente aos gêneros Lactobacillus ou Bifidobacterium de maneira geral.

Bifidobacterium longum 1714

Essa cepa vem sendo estudada especialmente em relação à resposta ao estresse, sono, bem-estar e humor.

Estudos anteriores observaram alterações relacionadas à resposta ao estresse e à atividade cerebral. Mais recentemente, um ensaio clínico com adultos apresentando sintomas depressivos leves a moderados avaliou a cepa por oito semanas. O estudo encontrou alguns efeitos positivos em aspectos como sono, energia e saúde mental, mas não demonstrou uma diferença estatisticamente significativa no principal desfecho de depressão ao final de oito semanas.

Ou seja: é uma cepa promissora para pesquisa, mas ainda não pode ser apresentada como tratamento comprovado para depressão.

Lactiplantibacillus plantarum PS128

Outra cepa que chama atenção é a Lactiplantibacillus plantarum PS128.

Um pequeno estudo clínico com pessoas que apresentavam insônia observou redução em algumas medidas de sintomas depressivos e fadiga após 30 dias.

Porém, estudos posteriores mostram por que precisamos ter cautela antes de transformar resultados preliminares em recomendações.

Em um ensaio clínico com pacientes com transtorno depressivo maior, o PS128 não apresentou diferença significativa em relação ao placebo na melhora da gravidade da depressão.

Isso demonstra como a ciência dos psicobióticos ainda está evoluindo.

Outras cepas também aparecem nas pesquisas

Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu 12 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 707 participantes, e encontrou sinais de redução de sintomas depressivos em estudos que utilizaram diferentes cepas, incluindo Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus paracasei, Lactobacillus casei, Lactobacillus plantarum, Lactobacillus salivarius, Bifidobacterium bifidum, Bifidobacterium lactis, Bifidobacterium breve e Bifidobacterium longum.

Isso parece bastante promissor, mas existe uma dificuldade importante: os estudos utilizam diferentes cepas, doses, combinações, populações e métodos de avaliação.

Por isso, ainda não é possível afirmar que exista um “probiótico para depressão” que funcione de maneira uniforme para todas as pessoas.

Probiótico pode substituir antidepressivo?

Não.

Essa é uma das informações mais importantes quando falamos sobre esse assunto.

Os estudos sobre psicobióticos investigam seu possível papel como estratégia complementar, e não como substitutos automáticos dos tratamentos convencionais para depressão, ansiedade ou outros transtornos psiquiátricos.

Também não devemos interromper medicamentos prescritos para tentar substituí-los por probióticos sem acompanhamento médico.

A relação entre microbiota e cérebro é real e biologicamente complexa, mas ainda estamos aprendendo quais microrganismos podem produzir determinados efeitos, em quais pessoas, em qual dose e durante quanto tempo.

Afinal, vale a pena prestar atenção às cepas?

Sim — principalmente porque esse é um dos pontos que mais ajudam a separar ciência de marketing.

Ao avaliar um probiótico, não basta observar uma embalagem dizendo “contém probióticos” ou “melhora a saúde intestinal”.

É importante verificar:

  • qual é a espécie;
  • qual é a cepa;
  • qual a quantidade fornecida;
  • se essa combinação foi estudada em seres humanos;
  • qual benefício foi observado nos estudos;
  • qual população foi estudada;
  • e se a dose utilizada corresponde àquela investigada.

A própria Organização Mundial de Gastroenterologia ressalta que não existe uma dose universal de probióticos: a quantidade necessária depende da cepa e do produto, e deve ser baseada nos estudos que demonstraram benefício.

O futuro dos psicobióticos

A possibilidade de utilizar determinadas bactérias para influenciar o eixo intestino-cérebro é uma área fascinante da medicina e da nutrição.

Entretanto, ainda estamos longe de ter uma fórmula única para “equilibrar a microbiota” e tratar transtornos de humor.

O futuro provavelmente estará menos relacionado à ideia de “um probiótico para todos” e mais próximo de estratégias individualizadas, considerando alimentação, microbiota, metabolismo, sono, medicamentos, estilo de vida e características clínicas de cada pessoa.

Enquanto novas pesquisas são realizadas, a melhor abordagem continua sendo olhar para os probióticos com interesse, mas também com senso crítico.

Eles podem representar uma ferramenta complementar interessante, mas não devem ser tratados como solução milagrosa para depressão, ansiedade ou outros transtornos de humor.