Compulsão alimentar não é uma escolha consciente

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Flávia Libonati

Quem vive episódios de compulsão sabe que não se trata de “querer comer demais”. Existe uma sensação clara de perda de controle, seguida muitas vezes de culpa e frustração. Do ponto de vista biológico, esse comportamento é resultado de falhas nos mecanismos que regulam fome, saciedade, prazer e estresse.

O cérebro não decide sozinho. Ele responde a sinais hormonais, metabólicos e inflamatórios.

Dopamina e sistema de recompensa desregulado

A compulsão alimentar está fortemente ligada ao sistema dopaminérgico, responsável por motivação e recompensa. Em situações de estresse crônico, privação de sono, dietas restritivas ou inflamação, esse sistema passa a exigir estímulos cada vez mais intensos para gerar sensação de prazer.

Alimentos altamente palatáveis tornam-se uma forma rápida de compensação neuroquímica, não por falta de controle, mas por adaptação cerebral.

Cortisol, estresse e busca por alívio

O cortisol elevado mantém o organismo em estado de alerta. Nesse contexto, o corpo busca fontes rápidas de energia e conforto, favorecendo episódios de compulsão, especialmente no final do dia.

Por isso, tratar apenas o comportamento alimentar sem abordar estresse, sono e rotina hormonal costuma falhar.

Glicemia instável alimenta a compulsão

Oscilações bruscas de glicose no sangue aumentam a fome, a irritabilidade e a urgência por comida. Dietas muito restritivas, longos períodos em jejum mal conduzido ou excesso de carboidratos refinados contribuem para esse ciclo.

A compulsão, nesses casos, é uma resposta fisiológica à instabilidade metabólica.

Inflamação e resistência à leptina

Inflamação crônica e resistência à leptina dificultam a percepção de saciedade. O cérebro recebe sinais distorcidos e continua estimulando a ingestão, mesmo quando o corpo já tem energia suficiente.

Isso explica por que muitas pessoas comem além do necessário sem sentir satisfação real.

Compulsão exige abordagem integrada

Encarar a compulsão alimentar como falha de caráter aumenta estigma e sofrimento, mas não resolve o problema. O tratamento efetivo envolve avaliar nutrição, metabolismo, hormônios, saúde intestinal e saúde mental de forma conjunta.

Quando a biologia é respeitada, o comportamento muda. Cuidar do corpo é parte essencial para restaurar o equilíbrio alimentar e emocional.