Durante a Conferência Científica e Clínica Anual da American Association of Clinical Endocrinology, foi destacado um ponto que merece atenção na prática clínica: o risco de quedas e fraturas parece seguir uma curva em U em relação aos níveis de vitamina D.
Isso significa que tanto valores baixos quanto valores elevados de 25-hidroxivitamina D no sangue estão associados a maior risco. A faixa considerada de menor risco, com base nos dados atuais, situa-se aproximadamente entre 20 ng/mL e 40 ng/mL. Ainda assim, mais estudos são necessários para definir com precisão os limites dessa “zona segura”.
O que dizem os grandes estudos
Ensaios clínicos de grande porte, como VITAL, ViDA e D-HEALTH, não demonstraram redução nem aumento significativo do risco de quedas com a suplementação de vitamina D. No entanto, esses estudos apresentam limitações importantes:
- Quedas não eram o desfecho principal.
- A maioria dos participantes já tinha níveis adequados de vitamina D no início.
- A coleta de dados sobre quedas, em estudos muito grandes, tende a ser menos precisa.
Esses fatores reduzem a chance de observar benefícios claros da suplementação em populações não deficientes.
Por que níveis altos podem aumentar o risco?
Um dos mecanismos propostos envolve o aumento do FGF23, um fator de crescimento associado à fragilidade. Doses elevadas de vitamina D podem elevar significativamente esse marcador, que está relacionado a:
- Aumento do hormônio da paratireoide.
- Redução do fósforo.
- Miopatia, com impacto direto na força muscular e no equilíbrio.
Em níveis baixos de vitamina D, o risco parece estar mais ligado ao desequilíbrio postural e à fraqueza muscular. Em níveis altos, o problema passa a ser bioquímico e hormonal.
O papel da obesidade nesse cenário
A obesidade adiciona uma camada extra de complexidade. A vitamina D pode ser sequestrada no tecido adiposo, reduzindo os níveis circulantes mesmo com suplementação. Além disso, há indícios de que a obesidade possa atrasar a conversão hepática da vitamina D, prolongando o tempo necessário para atingir níveis estáveis.
Isso reforça que doses padronizadas nem sempre funcionam da mesma forma para todos.
Suplementar ou não suplementar?
Existe uma deficiência global de vitamina D e cálcio, especialmente em adultos mais velhos. Ainda assim, a mensagem central não é suplementar indiscriminadamente, mas avaliar:
- Níveis séricos reais.
- Condições clínicas associadas.
- Risco de quedas, fraturas e fragilidade.
Ensaios clínicos focados em pessoas realmente deficientes ainda são necessários para definir com mais clareza o impacto da reposição sobre quedas e fraturas.
Conclusão clínica
Vitamina D não deve ser vista como “quanto mais, melhor”. O equilíbrio é o ponto-chave. Avaliação individual, acompanhamento laboratorial e estratégia personalizada continuam sendo o caminho mais seguro para proteger ossos, músculos e funcionalidade ao longo do envelhecimento.