Como a queda do estrogênio afeta o cérebro na menopausa

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Flávia Libonati

A menopausa não acontece apenas nos ovários. O cérebro também participa intensamente dessa transição.

Quando os níveis de estrogênio começam a oscilar e, posteriormente, diminuem, algumas mulheres percebem mudanças que podem ser difíceis de explicar: dificuldade de concentração, esquecimentos, sensação de “mente cansada”, alterações do humor, piora do sono e redução da disposição.

Esse conjunto de sintomas é frequentemente chamado de brain fog, ou névoa mental. Embora possa ser bastante incômodo, não significa necessariamente que exista uma doença neurológica ou que a mulher esteja desenvolvendo demência.

O que o estrogênio tem a ver com o cérebro?

O estrogênio não atua apenas sobre o sistema reprodutivo. Seus receptores estão presentes em diferentes regiões do cérebro, incluindo áreas relacionadas à memória, atenção e regulação do humor.

Durante a transição para a menopausa, as oscilações hormonais podem interferir no funcionamento desses circuitos. Também podem ocorrer mudanças no metabolismo energético cerebral, na circulação e em estruturas envolvidas com memória e funções executivas.

Na prática, algumas mulheres podem perceber:

  • dificuldade para encontrar palavras;
  • esquecimentos pontuais;
  • menor capacidade de concentração;
  • sensação de lentidão mental;
  • dificuldade para realizar várias tarefas simultaneamente;
  • alterações de humor;
  • maior irritabilidade;
  • sono mais fragmentado.

Mas é importante lembrar: esses sintomas não dependem exclusivamente do estrogênio.

Sono inadequado, estresse, ansiedade, sedentarismo, alterações metabólicas e ondas de calor também podem interferir na função cognitiva.

O cérebro também precisa de combustível

É aqui que a nutrologia pode contribuir.

A alimentação não consegue simplesmente “repor” o estrogênio que diminuiu. Também não existe um alimento ou suplemento capaz de interromper o processo da menopausa.

O objetivo é outro: oferecer ao organismo os nutrientes necessários para manter o metabolismo cerebral, preservar massa muscular, favorecer a saúde cardiovascular e metabólica e contribuir para um envelhecimento saudável.

1. Priorizar um padrão alimentar de qualidade

Um dos padrões alimentares mais estudados é o mediterrâneo, baseado em:

  • verduras e legumes;
  • frutas;
  • leguminosas;
  • cereais integrais;
  • azeite de oliva;
  • castanhas e sementes;
  • peixes;
  • fontes adequadas de proteínas;
  • menor consumo de alimentos ultraprocessados, açúcares e gorduras saturadas.

Esse padrão favorece a saúde cardiovascular e metabólica e está associado a diversos benefícios para a saúde cerebral.

Mais importante do que seguir uma dieta da moda é construir uma alimentação que possa ser mantida no longo prazo.

2. Dar atenção especial às proteínas

A preservação da massa muscular se torna cada vez mais importante com o avanço da idade.

Uma alimentação com quantidade adequada de proteínas, associada ao exercício de força, ajuda a preservar massa e função muscular.

E isso também faz parte da saúde cerebral.

Manter força, mobilidade, autonomia e um bom metabolismo contribui para um envelhecimento mais saudável.

A quantidade ideal de proteína, entretanto, deve ser individualizada de acordo com idade, peso, composição corporal, atividade física e condições clínicas.

3. Não esquecer os ácidos graxos ômega-3

Peixes como sardinha, cavalinha e salmão são fontes de EPA e DHA, ácidos graxos importantes para o organismo.

O consumo adequado de peixes e de outras fontes de gorduras insaturadas faz parte de um padrão alimentar associado à saúde cardiovascular e metabólica.

Quando existe indicação de suplementação, ela deve ser avaliada individualmente.

Suplementar sem necessidade não é sinônimo de cuidar melhor da saúde.

4. Corrigir deficiências, em vez de suplementar indiscriminadamente

Vitamina B12, folato, vitamina D, ferro e outros nutrientes podem ser relevantes dependendo da história clínica e dos exames da paciente.

Mas existe uma diferença importante entre corrigir uma deficiência e tomar diversos suplementos “para o cérebro”.

A avaliação nutrológica deve considerar alimentação, sintomas, medicamentos, histórico clínico e exames laboratoriais antes de indicar suplementação.

5. Cuidar do metabolismo

Pressão arterial elevada, diabetes, alterações do colesterol, excesso de peso e sedentarismo não são apenas questões relacionadas ao coração.

A saúde vascular está diretamente relacionada à saúde cerebral.

Por isso, controlar glicemia, pressão arterial, colesterol, composição corporal e nível de atividade física faz parte de uma estratégia de cuidado com o cérebro ao longo da vida.

E os fitoestrogênios?

Alimentos como soja e seus derivados contêm isoflavonas, compostos vegetais que possuem atividade estrogênica muito mais fraca que o estrogênio produzido pelo organismo.

Eles podem fazer parte de uma alimentação saudável, mas não devem ser apresentados como uma forma de “substituir” o estrogênio ou como tratamento universal para os sintomas da menopausa.

Como sempre, contexto e individualização são fundamentais.

E a terapia hormonal?

Essa é uma questão que merece uma avaliação médica individualizada.

A terapia hormonal é uma das opções utilizadas para o tratamento de sintomas da menopausa, especialmente sintomas vasomotores, como ondas de calor e sudorese noturna. Em algumas mulheres, a melhora desses sintomas pode também favorecer o sono e a qualidade de vida.

Entretanto, a terapia hormonal não deve ser indicada com o objetivo de prevenir demência ou tratar declínio cognitivo de forma isolada.

Sua indicação deve considerar sintomas, idade, tempo desde a menopausa, histórico pessoal e familiar, fatores de risco e preferências da paciente.

O cérebro feminino precisa de uma estratégia, não de uma fórmula mágica

A menopausa é uma fase de transformação hormonal, metabólica e comportamental.

Por isso, quando uma mulher percebe mudanças na memória, concentração, sono ou humor, vale olhar para o quadro como um todo.

Uma estratégia nutrológica pode envolver:

alimentação de qualidade + proteína adequada + atividade física + sono + controle metabólico + correção de deficiências + avaliação individual dos sintomas.

Não existe um suplemento capaz de substituir esse conjunto.

E existe outro ponto importante: sintomas novos, intensos ou progressivos de memória e comportamento não devem ser automaticamente atribuídos à menopausa. Eles merecem avaliação médica para investigar outras possíveis causas.

Cuidar do cérebro feminino durante a menopausa não significa tentar impedir uma mudança natural.

Significa atravessá-la com informação, acompanhamento e estratégias que favoreçam saúde, autonomia e qualidade de vida.