Como o estresse crônico pode aumentar a gordura abdominal?

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Flávia Libonati

Estresse, cortisol e aquela gordura que insiste em aparecer na barriga

Você já percebeu que, em períodos de muito estresse, parece mais difícil controlar a fome, dormir bem e manter o peso?

Não é apenas uma impressão.

O estresse crônico pode interferir em diferentes sistemas do organismo, incluindo o chamado eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), responsável por coordenar parte da resposta do corpo ao estresse.

Nesse processo, o cortisol tem um papel importante. Ele é um hormônio essencial para a nossa sobrevivência: ajuda a disponibilizar energia, participa da regulação da glicose, da pressão arterial e da resposta do organismo diante de situações desafiadoras.

O problema não é produzir cortisol. O problema pode estar na exposição prolongada ao estresse e nas alterações da regulação desse sistema.

Pesquisas mostram uma relação complexa entre estresse crônico, alterações na atividade do eixo HPA e obesidade, especialmente quando existe também excesso de ingestão calórica, sono inadequado e mudanças de comportamento.


O que acontece com o cortisol durante o estresse?

Imagine que você esteja diante de uma situação de ameaça.

O organismo rapidamente entra em estado de alerta. O cérebro ativa o eixo HPA, levando à liberação de hormônios que culminam na produção de cortisol pelas glândulas adrenais.

Em uma situação pontual, essa resposta é perfeitamente normal.

Depois que o estímulo passa, os mecanismos de feedback ajudam o organismo a retornar ao equilíbrio.

Quando o estresse se torna frequente e prolongado, porém, essa resposta pode sofrer alterações. O ritmo diário do cortisol e a sensibilidade aos glicocorticoides podem ser modificados.

E aqui existe um detalhe importante: estresse crônico não significa necessariamente cortisol constantemente alto.

Em algumas pessoas, pode haver aumento da exposição ao cortisol ou maior sensibilidade à sua ação; em outras situações, a resposta pode se tornar menos responsiva. Por isso, não é correto afirmar que toda pessoa estressada possui “cortisol alto”.


Por que o estresse pode favorecer a gordura abdominal?

O cortisol participa da regulação do metabolismo energético e pode influenciar o apetite, a utilização da glicose e o tecido adiposo.

A gordura localizada na região abdominal, especialmente a gordura visceral, possui características que fazem com que seja particularmente relevante nessa relação.

O tecido adiposo também participa ativamente do metabolismo dos glicocorticoides. Alterações locais nesse metabolismo podem contribuir para a associação entre estresse, cortisol e distribuição da gordura corporal.

Além disso, o estresse pode modificar comportamentos que favorecem o ganho de peso:

  • maior vontade de consumir alimentos muito palatáveis;
  • aumento da ingestão alimentar em algumas pessoas;
  • piora da qualidade do sono;
  • redução da disposição para atividade física;
  • alterações na rotina alimentar.

Assim, não devemos pensar no cortisol como o único responsável pela gordura abdominal.

O ganho de gordura é multifatorial. Genética, alimentação, sono, atividade física, idade, alterações hormonais, medicamentos, metabolismo e saúde mental também podem participar desse processo.


Quais nutrientes podem ajudar o organismo a lidar melhor com o estresse?

Não existe um alimento ou suplemento capaz de “desligar” o cortisol.

Porém, uma alimentação adequada fornece nutrientes importantes para o funcionamento do sistema nervoso, metabolismo energético e resposta fisiológica ao estresse.

Magnésio

O magnésio participa de centenas de reações metabólicas e está envolvido no funcionamento neuromuscular e na produção de energia.

Boas fontes alimentares incluem:

  • castanhas e outras oleaginosas;
  • sementes;
  • leguminosas;
  • folhas verdes;
  • cereais integrais.

A suplementação não deve ser feita indiscriminadamente. A necessidade depende da alimentação, do estado nutricional e das características individuais.

Ômega-3

Os ácidos graxos ômega-3, especialmente EPA e DHA encontrados em peixes, participam de processos relacionados à função cerebral e à regulação inflamatória.

Sardinha, salmão e outros peixes são boas fontes alimentares.

Isso não significa, entretanto, que tomar cápsulas de ômega-3 seja uma forma direta de “reduzir o cortisol”. A indicação de suplementação deve considerar o contexto clínico e nutricional de cada pessoa.

Vitaminas do complexo B

Vitaminas como B6, B9 e B12 participam de diversas reações metabólicas e do funcionamento adequado do sistema nervoso.

Elas podem ser obtidas por meio de uma alimentação variada, incluindo carnes, ovos, leite e derivados, leguminosas, verduras e cereais, conforme as necessidades individuais e o padrão alimentar.

Deficiências nutricionais devem ser identificadas e corrigidas quando presentes.

Vitamina C

A vitamina C participa da síntese de neurotransmissores, da função imunológica e de diversas reações metabólicas.

Frutas cítricas, kiwi, morango, acerola, goiaba e vegetais são boas fontes.

Mais uma vez, o objetivo não é utilizar vitamina C como um “bloqueador de cortisol”, mas garantir que o organismo tenha os nutrientes necessários para funcionar adequadamente.


E a alimentação? Ela pode fazer diferença?

Sim — e talvez esse seja um dos pontos mais importantes.

Em períodos de estresse, é comum buscar alimentos rápidos, altamente palatáveis e ricos em açúcar e gordura. Quando isso se torna frequente, pode contribuir para o excesso calórico e dificultar o controle do peso.

Uma alimentação baseada em alimentos minimamente processados, adequada em proteínas, fibras, frutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas e boas fontes de gordura ajuda a construir uma rotina nutricional mais equilibrada.

Além disso, refeições com boa densidade nutricional podem favorecer maior saciedade e ajudar na organização da alimentação.

Não existe uma dieta específica capaz de eliminar a gordura abdominal causada pelo cortisol.

O mais importante é cuidar do conjunto.


Dormir bem também faz parte do controle do estresse

Não podemos falar de cortisol sem falar de sono.

O sono inadequado está relacionado a alterações na regulação do eixo HPA e também se associa à obesidade, criando uma relação complexa entre estresse, sono, hormônios, comportamento alimentar e peso corporal.

Por isso, cuidar do sono não é apenas uma recomendação para descansar melhor.

É também uma parte importante de uma estratégia de saúde metabólica.

Ter horários relativamente regulares, reduzir estímulos antes de dormir e criar condições adequadas para o sono são medidas simples que podem fazer parte dessa estratégia.


O que realmente ajuda a equilibrar o organismo?

Quando o estresse é crônico, procurar apenas um suplemento pode fazer com que o problema seja analisado de maneira incompleta.

Uma abordagem mais ampla pode envolver:

  • alimentação equilibrada;
  • sono adequado;
  • atividade física regular;
  • exposição à luz natural;
  • momentos de descanso;
  • técnicas de manejo do estresse;
  • acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando necessário;
  • avaliação médica quando existem sintomas persistentes ou alterações metabólicas.

O tratamento deve considerar a pessoa como um todo.

E, principalmente, não devemos assumir que qualquer aumento de gordura abdominal significa cortisol elevado.

Quando existe ganho de peso persistente, aumento da circunferência abdominal, alterações de glicemia, pressão arterial, sono, humor ou outros sintomas, uma avaliação médica pode ajudar a identificar os diferentes fatores envolvidos.


Cuidar do estresse também é cuidar do metabolismo

O cortisol é um hormônio necessário e importante. O objetivo não é eliminá-lo, mas preservar uma resposta adequada do organismo diante das situações de estresse.

O estresse crônico pode participar de um ciclo envolvendo alterações hormonais, sono inadequado, comportamento alimentar e aumento do risco metabólico. Por isso, cuidar da saúde emocional, da alimentação, do sono e dos hábitos de vida faz parte de uma estratégia integrada de saúde.

Seu corpo não funciona em partes isoladas.

Quando mente, metabolismo, alimentação, sono e hábitos de vida são cuidados em conjunto, a saúde também pode ser compreendida de forma mais completa.